Quem é dono da verdade, não é dono de ninguém

Nossa visão de mundo pode ser confirmada e, inclusive, sofrer mudanças.

Cada um de nós tem a sua forma de perceber os fatos, as pessoas e o contexto por um todo. Faz tempo que os filósofos chamaram isso de cosmovisão, ou seja, a visão de mundo que tenho a partir do meu ângulo, minha história e minha condição atual. Quem está sofrendo ou feliz, pobre ou rico, saciado ou desempregado, casando ou separando, na escuridão da ignorância ou na luz do conhecimento, todos emitimos o juízo a partir de nossas causas. Por isso também tem sido a filosofia, desde cedo, a afirmar irredutivelmente que a verdade tem muitas facetas. Lembro uma canção: “(… ) quem é dono da verdade, não é dono de ninguém” (Capital Inicial).

Estamos convivendo com a “ditadura da verdade pessoal” em nome da liberdade de expressão. Nunca falamos tanto de democracia e tolerância, escuta e diálogo, mas tudo isso vira areia em nossas mãos quando confronta a nossa opinião e liberdade. Seja no mundo pessoal, profissional ou social estamos completamente destreinados para conviver com quem pensa diferente, quem crê e age conforme “sua verdade”. E claro, sem a bandeira do relativismo, a fé cristã também fala de uma Verdade, inclusive sobre a pessoa humana: a origem da vida, o desejo de Deus, o conceito de família, a morte e vida eterna. Estas são verdades para nós, professadas, ensinadas e defendidas, mas devem ser exercidas com a certeza de que a “semente do Verbo” está para além de nosso plantio, e não apenas nele.

Quando nos colocamos como “donos da verdade” atrapalhamos a fé, as relações, os projetos pessoais, a sociabilidade e as diferenças. Basta dar uma olhada nos debates da mídia, nas discussões presenciais, nos confrontos ideológicos e nas disparidades profissionais e familiares. Em nome de nossas verdades “amamos e matamos” como se isso fosse a mesma coisa. “Há muito pouco tempo aprendi a aceitar (…)”, diz o início da frase citada, ou seja, aceitar o que o outro chama de verdade é um aprendizado necessário e a primeira condição do diálogo, o que não quer dizer que seja a minha visão de mundo e do fato em si. Como isso é difícil! Que o digam as discussões políticas atuais no Brasil! Sabedoria é acreditar, de uma vez por todas, que é preciso aprender com as “verdades do outro”. São elas que me ajudam a analisar, pensar, confirmar e, inclusive, reformular as minhas verdades.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: