Todos podem amar muito

Teresa de Ávila (Espanha, Séc. XVI) tinha o desejo da verdade, ansiava por ela e percorreu um caminho interior não tão fácil para encontrá-la. A maior dificuldade se dava exatamente pelas distrações do coração com o exterior. Não era uma mulher de cultura, mas compreendia que mesmo não tendo tanta habilidade para “a arte do pensar o saber”, o amor e amizade a Deus preencheriam suas lacunas de sentido, realização e felicidade, de tal forma que as outras realidades jamais poderiam ser superioras, embora considerasse sempre o valor do saber, inclusive teológico.

Depois de muitos anos vivendo uma vida a mendigar a atenção dos outros, distraída de si mesmo em favor do que lhe acontecia fora, Teresa faz a experiência de que não conhece a si mesma, muito menos a Deus, aquele a quem pretendia entregar a vida para sempre. Reconhecia-se não amiga de Deus e isto a angustiava. Tudo recomeça quando a misericórdia a atraiu à conversão e lhe mostrou que a oração é via por excelência para se cultivar a amizade com Deus. Se a amizade é uma escolha gratuita, é certo que ela precisa de reciprocidade, porque ninguém é amigo sozinho, visto que a amizade é uma comunhão de dois corações na verdade. Verdade esta que não permite a mentira e a falta de transparência na vida de dois amigos. Da mesma forma, quando nos aproximamos de Deus e estamos na mentira, não haverá encontro, não haverá reciprocidade, não haverá comunhão e transformação de vida. Somente a oração sincera abre o coração para o desejo e acolhida da verdade. Rezar é o caminho direto para conhecermos a Deus e a nós mesmos. Rezar significa processo que também nos expõe para que a nossa verdade seja revelada, porque Deus é luz sobre o candeeiro: “Com efeito, tudo o que está escondido deverá tornar-se manifesto” (cf. Lc 8,17).

Deus nos mostra a nossa verdade não para nos acusar, nos condenar, mas para nos atrair ao arrependimento e à conversão, ao retorno para a Sua amizade. Foi isto que aconteceu com Teresa de Ávila e é o que Deus pretende fazer conosco. É óbvio que precisamos de humildade se queremos ser atingidos pela misericórdia de Deus, pois “a humildade é a verdade”, segundo Santa Teresa. O orgulho pode facilmente tomar conta do nosso saber, mas também da nossa oração. O termômetro é sempre a vida na caridade de Cristo em favor dos outros. Quanto a isso, diz Teresa: “Muitos não estão capacitados para pensar muito, mas todos podem amar muito”. Deus nos conceda esta graça!

Antonio Marcos

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