O Amor de Deus está conosco


 A narrativa do capítulo 19 de Gênesis (15-19), no tocante à fuga de Ló e sua família para não morrerem com a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra, apresenta-nos uma rica possibilidade hermenêutica, ou seja, de interpretação contextualizada, e não absurda. Nas entrelinhas está a fidelidade de Deus à sua promessa feita a Abraão, por isso salva seu sobrinho Ló, mesmo tendo ele também se tornado alvo do favor e da bondade de Deus. Vemos, sobretudo, o Amor divino perdurar além das infidelidades do amor humano. Vemos o Amor divino manifestar uma “memória” – também de amor -, por isso sempre atuante.
Os riscos do Amor nas Sagradas Escrituras estão registrados do começo ao fim. O Amor expressa o desejo de salvar a Ló e sua Família, mas respeita seus medos e acolhe seus pedidos. “Vai Ló, se a montanha é distante e estás com medo de não chegar a tempo, refugia-te nesta cidade para onde desejas ir e prometo que não a destruirei por causa de ti. Porém, peço-te uma única coisa: não olhes para trás”. Os místicos e a teologia figurativa dos Padres da Igreja veriam aqui o lado interior, a opção radical, a intimidade da amizade com Deus que não deve voltar ao “velho amor”, mas ir adiante, mesmo deixando para trás bens preciosos. “Ora, a mulher de Ló olhou para trás e tornou-se uma estátua de sal” (ver. 26).
Não se nega o fato histórico de que a esposa de Ló tenha desobedecido à ordem do Amor de não olhar para trás, porém, esta esposa também – como nos permite pensar a teologia simbólica – seria este drama da intimidade quando se vê diante do risco, da decisão, do perigo e do medo pelo desconhecido. A desinstalação radical pede fé, como indispensável é a fé quando a vida se encontra no meio das agitações: “Por que tendes tanto medo, homens fracos na fé?” (cf. Mt 8, 26). Nós estamos sujeitos ao medo, o Amor bem sabe, porém, sem a fé ele certamente nos destruirá. Sem a fé no possível e no impossível que pode operar o Amor, podemos nos agarrar outra vez ao que fica para trás, ou não mais saber o que fazer, perdendo assim a “memória da salvação”. O Amor de Deus está conosco, mesmo quando pensamos que Ele dorme ou que nos propôs algo impossível.
Antonio Marcos

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