“O que eu vou ganhar com isto?”


O Brasil teve a oportunidade de ver em um dos principais canais de TV aberta, no dia 01 de abril (à noite), o contexto lamentável das péssimas condições do atendimento à população brasileira nos hospitais públicos. A barbárie, a negligência, a corrupção e o descaso se sobrepõem às poucas experiências exemplares, infelizmente. Mas temos de dizer que tal realidade não soa como novidade e, consequentemente, também o espanto já não nos surpreende. O que, graças a Deus, ainda não morreu em nós foi mesmo a indignação. No entanto, também temos de levar em conta que a nossa indignação ainda é bastante acomodada, passiva, fácil de ser domada e negociada por um prato de lentilha.
Claro, o prato de lentilha negociado por nós é mesmo por alguma coisa vital, por menor que seja, de modo que favoreça em nós ao menos a esperança de que não morreremos fora do hospital. As pessoas diziam ao repórter: “Este hospital é uma mãe, porque ao menos recebe todo mundo, mesmo que a gente fique aqui pelo corredor, mas temos uma maca e o soro”. Ou seja, o mínimo que nos derem já nos deixa gratos e podemos dizer que estão fazendo o melhor por nós! E assim o cidadão com sua enfermidade e dignidade vai sendo tratado nos hospitais como bicho: não precisa cuidar da pata quebrada, basta dar um pouco de comida! Não há motivos de preocupação se “estamos roubando ou não”, basta darmos a eles uma maca, um soro e um cantinho no corredor.
Minha maior preocupação e sofrimento provêm, sobretudo, da reflexão sobre a consciência da vocação na vida de um profissional de saúde, mas não só desta área, mas de tantas outras. Quantas pessoas desencontradas, mal realizadas no que fazem. É comum ouvirmos os jovens estudantes de Direito, Psicologia, Medicina etc., afirmarem: “escolhi tal profissão porque dá dinheiro!” A preocupação em assumir uma carreira profissional não se concentra – para a maior parte dos estudantes – no desejo de servir ao homem, de colaborar no resgate da dignidade dos outros, no progresso da ética e da justiça, no exercício de seus talentos e de sua paixão profissional, mas em simplesmente ganhar dinheiro.
Na verdade, a “carreira” deveria ser “vocação, realização, serviço”, mas isto acontece hoje de forma muito limitada. Alguns ainda dizem: isso não existe mais! Talvez explique um pouco o fato de tais profissionais serem tão passivamente condizentes com a corrupção, pra não falar das negligências no exercício da profissão. O que era para gerar vida acaba matando! E os padres não estão isentos desse perigo! Infelizmente, diante das oportunidades fáceis para obter vantagens, a pergunta que prevalece é “o que eu vou ganhar com isto?” e não mais “devo fazer isto?”. Mas não podemos deixar que nossas esperanças morram com os que deixaram morrer em si o sentido da “vocação profissional”. Ensinemos tais valores aos nossos filhos e celebremos os bons exemplos que ainda existem entre nós. Assim teremos mais consciência para cobrar do Estado os direitos inalienáveis da pessoa humana, dentre eles, o tratamento digno de suas enfermidades.    
Antonio Marcos                  

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