Viver longe de nossa origem é viver longe de nós mesmos!


Transcrevo aqui uma parte das belas e profundas palavras do Santo Padre, Bento XVI, tiradas do seu livro “Jesus de Nazaré”, correspondentes ao Evangelho deste XXIV Domingo do Tempo Comum (Lc 15,1-32), especificamente a Parábola do Filho Pródigo.

Encontramos lá, em primeiro lugar, a figura di filho pródigo, mas logo no princípio vemos também a grandeza do coração do pai. Ele atende ao desejo do filho mais novo pela sua parte da riqueza e divide a herança. Dá ao filho a liberdade. Ele pode imaginar o que o filho mais novo vai fazer, mas deixa-lhe o caminho livre.

O filho vai “para uma terra distante”. Os Padres da Igreja viram aqui principalmente o interior alheamento do mudo do pai – o mundo de Deus, a ruptura interior da relação, a extensão do afastamento do que é próprio e do que é autêntico. O filho esbanja a sua herança. Ele quer simplesmente gozar. Quer saborear a vida até o extremo, ter, segundo seu pensamento, “uma vida em plenitude”. Não quer estar submetido a mais nenhum mandamento, a mais nenhuma autoridade: ele procura a radical liberdade; quer apenas viver para si mesmo; sente-se totalmente autônomo.

É difícil para nós ver aqui também o espírito da moderna rebelião contra Deus e contra a sua lei? O abandono de tudo o que agora se tinha alcançado e a caminhada para uma liberdade sem limites? A palavra grega que está na parábola para a fortuna esbanjada significa, na linguagem da filosofia grega, “essência”. O pródigo esbanja a “sua essência”, a si mesmo.

No fim, está tudo gasto. Então, aquele que se tronara totalmente livre torna-se agora escravo: guardador de porcos, que seria feliz se recebesse o comer dos porcos como alimento. O homem que entende a liberdade como radical arbitrariedade da própria vontade e do próprio caminho vive na mentira, pois o homem, por essência, faz parte de um convívio, a sua liberdade é uma liberdade compartilhada; a sua essência traz em si mesma instrução e norma, e assim a liberdade seria esta interior unidade. Por isso, uma falsa autonomia conduz à escravatura: a história mostrou isto claramente. Para os Judeus, o porco é um animal impuro – servir aos porcos é então expressão da extrema alienação e da extrema miséria do homem. O totalmente livre tornou-se um escravo miserável.

Neste momento ocorre a “mudança”…

O pródigo percebe que está perdido. Que na casa de seu pai é que era livre e que os servos do seu pai são mais livres do que ele, que tinha julgado ser totalmente livre quando tomou a herança e partiu. “Entrou em si mesmo”, diz, o Evangelho (Lc 15,17); e aparece aqui como uma palavra vinda de uma terra distante o pensamento filosófico dos Padres da Igreja: longe de casa, vivendo longe da sua origem, este homem tinha também se afastado de si mesmo. Ele vivia longe da verdade da sua existência.

A sua mudança, a sua “conversão”, consiste em que ele reconheceu, se concebe como alienado, que realmente foi “para o estrangeiro” e que agora regressa a si mesmo. E em si mesmo ele encontra a indicação do caminho para o pai, para a verdadeira liberdade de um “filho”. As palavras que ele preparou para o seu regresso permitem-nos reconhecer a peregrinação interior que ele então atravessa. Ela é um estar a caminho da existência, que agora, atravessando todos os desertos, se dirige para a casa, para si mesmo. Com esta explicação “existencial” do caminho de casa, os Padres da Igreja explicam-nos também o que é “conversão”, que dores e que interiores purificações envolve, e devemos dizer tranquilamente que, assim, eles compreenderam [os fariseus] corretamente a essência da parábola e, assim, nos ajudam a reconhecer a atualidade.

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