A proposta da Igreja na formação da consciência política



Depois que o Estado Moderno se emancipou da religião, especificamente a católica, defendeu veementemente a sua autonomia de forma imperativa e quase que absoluta. Passou-se a pregar que a fundamentação religiosa para as questões de cunho social e político não tem mais nenhuma importância. A legitimação das leis cabe agora ao Estado. Claro, isto implica dizer que, definitivamente, ficou para trás o tempo da Cristandade, ainda que muitos digam haver um grande esforço para se voltar a ela, visto que a religião somente era forte quando detinha a máquina do Estado, pensa uma parcela considerável de pessoas.

Ora, a história concreta nos mostra claramente que essa separação se deu em termos mais plausíveis, porém, ainda se pode dizer que há uma relação. A bandeira do iluminismo levantada pela Revolução Francesa se desfez da simbólica e da mística cristã, mas, sem dúvida, não conseguiu definitivamente apagar das consciências e da própria interioridade e razão do homem moderno o aspecto religioso. E de fato, ela nunca o conseguirá. Quando cada parte pretende viver autodependentes, as consequências são trágicas. Estamos cansados de falar e escutar que a fé e razão não se antepõem, não foram dadas ao homem para uma divisão, mas se complementam dentro das suas características específicas. Uma fé não pensada se chega aos absurdos como assim contemplamos na história. Da mesma forma o pensamento destituído da fé conduz o homem a uma dimensão puramente racional, imanente e destituído de sua correspondência com as perguntas sobre o sentido da vida e sua dimensão transcendente.

A religião católica crê que a redenção do homem por Jesus Cristo, livrando-o do pecado e da escravidão da lei, tem caráter universal, daí que o Cristianismo tem uma proposta coerente, uma cosmovisão mais próxima do eixo existencial. Mas essa proposta nunca será uma imposição. A Igreja Católica, através da sua doutrina sobre o valor do homem e a sua doutrina Social, propõe uma sociedade mais justa e solidária, embasada na fé em Jesus Cristo, mas com o devido respeito e acolhia de quem crê de modo diferente e pensa a fé de modo diferente. De modo algum se trata de imposição e nem constitui uma contradição ou oposição aos valores humanos defendido pelos Estados, como também não fere os apelos que tem o homem pela transcendência. A religião tem sim, algo a oferecer à sociedade. Se ela é continuadora da missão de Jesus, não pode impor, mas é livre para propor a verdade, para orientar os católicos e ajudar na formação da consciência de todos os homens e mulheres. Jamais ela pode furtar-se desta missão.

Aqui no Brasil temos visto, de forma particular, uma maior atuação da Igreja-Instituição através dos seus organismos para a promoção da verdade, evangelização e formação da consciência do homem. A Igreja não se opõe ao Estado, mas reconhece sua “autonomia” e sua competência para o que lhe é devido. Nem sempre o Estado age da mesma forma, basta que contemplemos as questões ligadas à vida moral dos fiéis e aos valores fundamentais e de direito divino. No entanto, a Igreja contempla os frutos do Estado, especialmente quando seus representantes estão comprometidos com o bem comum e com a justiça. Se há o bem comum, a justiça e a promoção da dignidade humana, certamente aí melhor se encaixa a proposta da Igreja porque Ela propõe sempre o que eleva o homem e a sociedade, mas não como fins em si mesmos, mas como ponte para o definitivo, a salvação, a cidadania celeste, nossa pátria junto de Deus.

Em tempo de campanha política e apresentação de “propostas em vista do bem comum e da justiça” (como dizia Hegel), faz-se faz importante a boa escolha dos representantes do povo junto ao Estado. Todas as iniciativas da Igreja, como de todos os católicos pela mídia, internet, os diversos meios de comunicação, são louváveis e faz parte da missão da Igreja, de cada batizado. Todos nós podemos fazer algo de acordo com o que recebemos de Deus, de nossos princípios, usando nossas qualidades e capacidades humanas. A omissão é mesmo o maior mal que podemos fazer quando se trata de consciência política. Política não só é assunto do cristão, como faz parte da vida cristã, não como bandeira ideológica, mas como promoção do bem comum e da dignidade humana. A proposta da Igreja é salutar e digna de ser ouvida para se chegar a uma boa consciência política. Esta nunca será um prejuízo ou oposição para o Estado, mas companheira segura para se chegar ao que é compatível com os valores do homem, este homem que não é produto do Estado, mas obra maravilhosa das mãos de Deus.

Antonio Marcos

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