Assunção de Maria: uma denúncia e uma profecia!


“Irmãos: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos” (I Cor 15,20). Este é o início da Carta aos Coríntios, 2ª leitura deste Domingo em que a Igreja celebra a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, dogma Católico proclamado pelo Papa Pio XII em 1950. Diz o Concílio Vaticano II: “A Virgem Imaculada, que fora preservada de toda mancha da culpa original, terminando o curso de sua vida terrena, foi levada à glória celeste em corpo e alma, e exaltada pelo Senhor como Rainha do universo, para que se parecesse mais com o seu Filho, Senhor dos senhores (cf. Ap 19,16) e vencedor do pecado e da morte.” 
Assim como não é um absurdo acreditar no mistério dos mistérios: Jesus ressuscitou, venceu a morte como primícias; depois, nós que pertencemos a Ele, também ressuscitaremos para a feliz vida eterna, não é absurdo crer que “Maria fora exaltada pelo Senhor”, como assim diz o Concílio acerca da Assunção de Maria. Cremos que Deus quis elevar Maria de corpo e alma aos céus. Daí que hoje, nesta solenidade, vem-nos uma reflexão de algo muito importante, especialmente para os que creem: o valor do corpo humano para a existência e sua dimensão escatológica.
Diz a filosofia personalista: “Hoje se fala muitíssimo do corpo, de sua redescoberta, dos valores da somaticidade, do sexo, da beleza física, das virtudes de um corpo sarado e atlético, etc. Existe, certamente, muito de positivo em tudo isso: é uma correção justa e necessária do ponto de vista platônico, maniqueísta e cartesiano que, destacando a alma, o pensamento, a razão, sufocou ou mortificou a dimensão corpórea. O homem era identificado unicamente com a alma” (Mondin B. Valores Fundamentais, 2005).
Infelizmente, o que vemos hoje é o outro extremo e, diria, muito mais grave nas suas consequências, o de identificar o homem com o corpo. Esta linguagem é latente na forma de vida moderna com todas as suas ideologias e com todos os seus “ísmos” (materialismo, hedonismo, relativismo, etc.). Não esquecemos assim o ateísmo que proclamou “a morte de Deus” e, necessariamente, chegaria a reduzir o homem ao seu corpo. Tirando-lhe a dimensão da espiritualidade, da transcendência, o homem seria “deus de si mesmo”.
Não vamos longe para compreendermos as barbáries provenientes deste endeusamento do corpo em todas as suas dimensões, por exemplo, a estética e a deturpada relação ética que tem a sociedade com o corpo e o valor da vida. Algo só é bom se favorece a estética. Da mesma forma vemos essa “embriagante licenciosidade” agravada pela perda do sentido do pecado e a relativização do conceito de verdade e valores absolutos. Este endeusamento do corpo é contraditório porque permite a barbárie, a promiscuidade, as relações contra a natureza, o aborto, a pedofilia, a eutanásia, a violência contra o próximo para salvaguardar minha segurança e comodidade. Recentemente no Brasil temos visto a brutalização das ações humanas: o caso de Elisa Salmúdio e do garoto Bruce (Ceará) são exmplos claros, mas também essa ferrenha campanha a favor do aborto.
O corpo é dom de Deus e por isso “não é para o homem um valor acidental”. Ele deve ser sim, cultivado adequadamente, mas isto implica uma integralidade de caráter físico, ascético e espiritual, sempre de forma equilibrada. A antropologia católica fala de forma bela do valor do corpo, que é elemento substancial da existência humana. A teologia católica complementa e eleva esse sentido quando diz que o corpo é dom de Deus, é templo do Espírito Santo e está destinado à vida eterna, seja na beatitude ou na condenação. O corpo tem um valor perene porque assim quis Deus constituí-lo e assim o dignificou quando nos deu o sopro vital, infundiu nele uma alma e o vocacionou para a ressurreição da carne na parusia final.
Quando contemplamos o mistério da Assunção de Maria, ou seja, de que foi levada ao céu em corpo e alma e que assim não participou da corrupção da morte, por causa dos méritos de Cristo, ficamos felizes e compreendemos haver também uma lógica. A nossa natureza humana vem a este mundo marcada pelo pecado original, ou seja, a ausência da graça santificante e daquela condição de imortalidade nos tirada quando Adão e Eva escolheram livremente o pecado. O batismo nos apaga o pecado original, devolve-nos a graça santificante, mas não nos isenta da tendência ao pecado. Nossa natureza humana continua marcada pela fraqueza e destinada à corrupção até que a ressurreição da carne aconteça. Com Maria isto não aconteceu – ensina-nos a doutrina católica -, porque Deus quis preservá-la do pecado, escolheu-a desde sempre para ser imaculada e assim ser o sacrário onde seria gerado o Seu Filho Redentor. Maria colaborou biologicamente com a humanidade de Cristo, por isso Deus a fez sem mancha, sem a corrupção da natureza, sem o pecado. Isto é belo e é fé!
Deus a fez participar da vitória sobre a morte e o pecado nos méritos do Seu Filho Jesus. Ela é a única “pessoa humana” que se encontra no céu de corpo e alma. Ela é o protótipo da Igreja, modelo daquilo que seremos na vida eterna. Cristo introduziu nossa natureza humana no seio da Trindade e através da Sua vida ressuscitada quis elevar Maria para melhor parecer-se com Ele. Tudo isto pode aparentar uma simples formulação doutrinária, o que não é verdade, pois se trata de uma promessa feliz para todos nós que morremos na Sua vontade, na Sua comunhão.
O que se está fazendo com o corpo humano em nossos dias é um grande equívoco e comporta consequências incalculáveis. Essa idolatria ao corpo precisa urgente do testemunho dos que o vivem de forma correta. O homem é um ser integral e não somente corpo. Ele tem o mesmo valor de quando é apenas um feto, um bebê, um jovem ou um idoso que definha no seu processo natural. O homem sadio tem o mesmo valor que o homem doente, quando é atleta e quando é um homem vegetativo por um processo natural. Na ressurreição receberemos o nosso corpo, agora sem as marcas do sofrimento humano e sem as anomalias, mas o receberemos o corpo nosso, este no qual vivemos e não outro.
O valor deste corpo vem da dignidade de pessoa humana e, sobretudo, da filiação divina. Não façamos do corpo o fim último e, se necessário, disse Jesus, “arranquemos um olho”, para que não morramos com os dois e ganharmos a condenação eterna. A Solenidade da Assunção de Maria é uma denúncia a esta idolatria ao corpo e, ao mesmo tempo, ela é a profecia de que participaremos também da felicidade de termos o corpo glorioso na vida eterna. Portanto, que se diga, essa ressurreição precisa começar com o cuidado que se é preciso ter com o corpo que Deus nos deu e no qual quis Ele escolher como morada.
Antonio Marcos         

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