Há mais alegria em dar


O aspecto da generosidade expresso na teologia Paulina sempre nos é muito tocante e significativo. Paulo fala muito da oferta de vida, da doação, da entrega livre, da lei da liberdade, da vida nova que a graça nos conquistou. O segredo de seu discurso provém da experiência de Deus que fez. Um Deus que quer o coração, a entrega de vida, a conversão e não o simples cumprimento da Lei. A queda de Paulo a caminho de Damasco o fez conhecer Aquele a quem perseguia pela sua obstinação em acreditar que já tinha o suficiente, a inteligência, a invejável sabedoria, a cultura, o dinheiro, o status de Fariseu radical e de cidadão romano, portanto, aquele tal Jesus lhe era uma ameaça.

Depois da experiência com a Pessoa de Jesus este homem nunca mais foi o mesmo. A vida de Cristo foi impressa na sua consciência, corpo e alma de tal forma que todas as suas riquezas se tornaram nada, lixo até, como ele mesmo o considerou. Paulo passou a dar de graça o que muito de graça recebeu, a própria salvação em Jesus Cristo. “Não cobicei prata, ouro ou vestes de ninguém” (At 20, 33), disse o apóstolo aos seus irmãos. Este homem de Deus teve a mais profunda alegria em dar tudo, absolutamente tudo para ganhar vidas para Cristo. Penso comigo em figuras como Madre Teresa de Calcutá, Cardeal Van Thuan e João Paulo II. Não é fácil ter a coragem de se desfazer dos próprios status para poder ganhar a Cristo. Quem não lembra daquela imagem de João Paulo II, no Domingo de Páscoa, tentando dar a benção da janela aos peregrinos e não o conseguiu por causa da doença e da dor?! Quem o via se poderia pensar ser um homem desprezível, mas, na verdade, era o preço de quem ensinava que a felicidade não é ausência de dor e sofrimento, mas a oferta de vida na vontade de Deus, seja ela qual for, em que situação ou circunstância. Felicidade é dar de graça o que de graça recebemos e o fazer com alegria, não com ressentimentos e rosto abatido.

Quantos rostos abatidos encontramos cada dia, não pela dor ou pelo sofrimento por realidades concretas, mas pelo egoísmo, pela loucura do possuir, pela ganância e por esta doença em querer que tudo esteja em torno de minha pessoa: o meu dinheiro, os meus bens, as minhas roupas, o meu celular, o meu quarto, o meu mundo, sempre o meu… e que ninguém interfira no que é meu! Realmente neste mundo consumista e materialista vivemos muitas patologias no campo da posse. Isto nos asfixia as melhores disposições para o bem e nos deixa insensíveis aos que sofrem, aos que pedem, aos que mendigam ou mesmo aos mais necessitados e próximos que precisam de nós. Ficamos até irritados com tantos pedintes. Passamos a ter fortes justificativas para não viver a generosidade e não sermos palhaços. Quem quiser que trabalhe, faça como eu! Mas não se trata simplesmente de posses materiais, alimento das traças, mas do estado interior de quem vai descobrindo que o segredo da vida está em coisas mais escondidas, que maturam e se transformam no coração e na alma, então fazem do exterior não mais prisão, mas liberdade em dar com alegria. Não se trata de ser bobo, mas da verdade fundamental, fruto de uma comunhão com Deus, o único Bem que não passa, de que há mais alegria em dar do que em receber.

Antonio Marcos

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